domingo, 27 de fevereiro de 2011

SUR LE BATEAU

No fim dos anos 70, chegou a Salvador um curioso casal.
Klaus von S. era austríaco, barão como várias centenas de conterrâneos. Madeleine era belga. Quando caíram na boca do povo, línguas ferinas afirmaram que, apesar de tanta arrogância, ela era filha de modesto açougueiro flamengo.
Curioso casal mesmo.
Ele, engenheiro químico, fora contratado para trabalhar em Camaçari. Alugaram um apartamento no edifício Oceania, endereço considerado altamente colunável pelos parâmetros locais.
Curioso casal... Ela, massiva, de voz grossa, rosto cortado a facão, cabelo curto e farto; um escravo de Michelangelo. Ele, de feições delicadas, leve cabelo branco, pele transparente de tão alva, mãos finas revoando ao redor de um corpo delicado. Uma porcelana de Capo di Monte.
Deus, na sua Santa Pressa, nem sempre faz, convenhamos, as coisas certas...
A sociedade baiana iria entrar em uma roda-viva.

“Meu marido estava pesquisando um assunto de la plus grande importance, quase terminando e pronto para receber le Prix Nobel, quando ladrões entraram chez nous e roubaram anos de investigação científica. Desgostoso, Klaus abandonou o trabalho”. Não foi uma tragédia mesmo? Coitado...
A princípio, todos aderem, democraticamente, ao ônus da boa-fé popular. Que terrível experiência e quanta coragem essa de continuar lutando contra tamanha adversidade!...
Mas c´est la vie.

Madeleine fala muito e com grande autoridade. Sua forma de vestir atrai olhares perturbados. Cores que não combinam, tecidos de árdua definição... Klaus, sorridente, permanece silencioso. Suas camisas são de seda e seus lenços bordados denotam requintes quase perversos.
Rapidamente se tornam alvo preferido dos fotógrafos mundanos e confidências públicas das colunistas soteropolitanas. Presença obrigatória em coquetéis, vernissages e jantares à beira de todas as piscinas do Horto Florestal.
Também recebem. Em tout petit comitê. Ser convidado pelos barões von S. é privilégio raro, de uns poucos, os happy fews. A cada recepção no minúsculo apart com vista para o farol, a baronesa se queixa da falta que lhe fazem os talheres de prata, a baixela de Meissen, os cristais de Boemia. “Está tudo sur le bateau. Estes cargueiros demoram anos para chegar... E as alfândegas! Que loucura!” Ou seja, o contêiner dos tesouros ou estão ainda navegando por mares nunca dantes, ou as alfândegas – notem o plural – estão inventando burocracias especiais para prejudicar seres tão especiais na sua extrema e descomunal sofisticação.
Vão até Lençóis como desbravadores em época de bandeirantes. Lá invadem a casa de um advogado paulista, sob o pretexto de não haver pousada decente. É, nos anos 70, a pura verdade. O doutor está ouvindo música clássica no radiozinho de pilha. “Ah! – grita a baronesa – Salszburgo, Yehudi Menuhin, Rubinstein, meu amigo Karajan!... Toquei o concerto 3249-K de Mozart com ele...” E sem pedir licença, se apropria do rádio e leva-o para quarto sob o olhar estupefato do paulista e amigos presentes.
Ninguém até o momento sabia que ela era concertista. Provavelmente nem ela.

Mas a vida tem suas reviravoltas. O barão Klaus perde o emprego no pólo petroquímico. Fecha-se a pesada cortina vermelha do grande teatro vienense.
Madeleine, a pianista, se resigna a vender móveis, talheres de inox, louça das Lojas Americanas. Le bateau nunca chegou com sua preciosa carga.
Mas... mas ainda tem malas e mais malas de suntuosos tecidos de grandes costureiros franceses. A Avenue Montaigne ao alcance da peruagem local, ici, na Barra! São brocados e sedas exclusivas, veludos raros e linhos egípcios. A baronesa vende o suficiente para vestir toda a sossaiti do Morro Ipiranga e adjacências....
Sucesso redibitório.

Não passarão dois dias depois das despedidas do curioso casal para que, tais megeras de Shakespeare, a mulherada caia encima da baronesa concertista, que já está bem longe, sur le bateau, no meio do Atlântico. É que a empregada de uma colunável confessou ter visto exatamente o mesmo tecido francês, aquele que la vicomtesse de Ribes usou para o niver de casamento de Jean et Paule de Beaumont, no Algarve.
“E onde foi que você viu este veludo, minha filha?”
- Ah! Madami, foi na Baixa dos Sapateiros que eu vi, perto do Mercado de São Miguel...
Não só a baronesa Madeleine tinha comprado a maioria dos panos na Baixa dos Sapateiros, mas em promoção, ainda por cima!

Dimitri Ganzelevitch Salvador, 7 de dezembro de 2007.

Um comentário:

  1. Muito curiosa essa história. Além de tudo , reveladora desse "deslumbramento" de muitas pessoas diante de personagens desconhecisos , que "pintam" na Bahia e passam a ser incensados , como se fossem pessoas de alto valor na Europa ou nas Américas. Os brasileiros , de modo geral, são fissurados nos estranjas . Sei de muito barão estrangeiro que ludibriou deslumbradas baianas.

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