sexta-feira, 12 de outubro de 2012

PRESSÁGIOS



“...Não tenho de ficar buzinando como na Centenário (Avenida Centenário), pois na ciclovia da Centenário há de tudo, menos bicicletas. Cachorros com donos e sem donos, cachorrões e cachorrinhos, múmias paralíticas, velhotas indo a passo arrastado, espinhaço curvado, casais de namorados, estudantes, corredores, patinadores, carrinhos de bebê, gente que vem pela contramão (bicicletas idem), pedestres que cruzam a pista para tomar ônibus. Tem de tudo. E o ciclista tem de adivinhar o que essa gente toda vai fazer, para que lado vai virar, se ouviu a buzina, etc. e tal.”                                            

                                                                                        Luiz Britto


O texto acima foi colhido no instigante artigo de Luiz Britto, mas bem que poderia ser fragmento de uma carta de Pero Vaz de Caminha, não por uma razão de forma ou de brilho, mas porque, passados mais de 500 anos da visita de Caminha, o Brasil continua o mesmo.

O estrangeiro que hoje chega ao país e se depara com a nossa política econômica de terra arrasada, política de país pobre, exportador de produtos primários, agropecuários e minerais, com a indústria de peso entregue ao capital alienígena e a pequena indústria nacional sucateada, com onerosa, precária e atrasada infra-estrutura de energia, saúde e transporte, com carga tributária semelhante à que era imposta pela corte portuguesa, vê que o ambiente brasileiro continua propício à pilhagem de nossas riquezas naturais e à exploração do trabalho escravo dos negros, dos brancos genéricos, dos mestiços e do que resta dos índios. 

A rede norte americana Walmart é um bom exemplo da nossa passividade e submissão permanente à exploração colonial. Essa rede emprega um número insuficiente de escravos modernos, sem senzala, para engordar ainda mais o seu lucro, que já sofre de obesidade mórbida.

Na sua gula, usura e ganância por lucros absurdos e fáceis, a rede submete seus clientes a passar horas e horas nas filas, para pagar preços escorchantes por produtos de má qualidade, e ainda ser ferido por material cortante nas etiquetas colocadas ao longo do caminho, por onde é levado a circular.

Hoje, ao solicitar a uma funcionária - treinada para ser arrogante, com o mesmo treinamento e educação dada aos funcionários das embaixadas e dos consulados norte americanos - o favor de providenciar a instalação de um ferrolho para trancar por dentro o único banheiro em funcionamento no começo da manhã e evitar o vexame de um cliente ou de uma cliente ser surpreendida em trajes menores, com as calças na mão, a representante da Walmart respondeu que o banheiro tem que ficar aberto, porque não pode ser trancado, para impedir que os moradores de rua lá se tranquem para passar horas e horas fumando crack. Isso porque a ganância e a usura da rede não permitem que um empregado seja contratado para monitorar o uso do banheiro, mas os clientes podem continuar sendo torturados nas filas, explorados no preço, feridos no caminho e enganados na qualidade.

Todo esse surrealismo de mercado aconteceu hoje, após um passeio de bicicleta pela ciclovia da Centenário, quando foi constatando tudo que está escrito na crônica de Britto Caminha.

A Ciclovia da Centenário é uma das raras obras realizadas pelo atual governo municipal, no primeiro mandato, quando o prefeito obedecia ordens de Geddel Vieira Lima, então ministro do governo federal, e tinha as contas de gasolina pagas pelo governo estadual do PT. Depois que ACM Neto assumiu com sua equipe a prefeitura, no segundo mandato do fantoche João Henrique, a gestão municipal tornou-se o desastre que estamos suportando.

Pedalando, vê-se que a ciclovia e a pista de pedestres caminham paralelas e em vários pontos separadas apenas por alguns centímetros de grama rasteira, mas as pessoas e seus animais preferem circular pela ciclovia, onde se mostram muito mais felizes e confiantes. O que isso quer dizer? perguntei aos caracóis de meus cabelos.

A ciclovia é pintada de vermelho vivo, vermelho forte, vermelho justo, vermelho firme, que atrai e dá segurança às pessoas, ao contrário da pista de pedestres, que recebeu uma pintura amarela pálida, cor de menino amarelo, de filhinho de papai, de netinho de vovô.

Pois que isso tudo seja um bom presságio para a população, que vai escolher o novo prefeito de Salvador, no segundo turno votação.

Luís Eladio Humbert

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