Nunca dei de caras com o governador da Bahia, Jaques Wagner, numa livraria lendo um livro, no Cinema do Museu vendo um filme, ou na “Sagração da Primavera”, que acaba de ser remontada pelo corpo de dança da Fundação Cultural do Estado com o Balé do Teatro Castro Alves.
Dançarinos lêem carta de protesto no palco do TCA sexta, 21/09, antes da montagem do balé de Stravinsky. Foto de Dimitri Ganzelevitch
Dançarinos leem carta de protesto no palco do TCA sábado, 21/09, antes da apresentação do balé de Stravinsky. Foto de Dimitri Ganzelevitch.
No “Boteco do França” no Rio Vermelho, sim, já o vi com sua trupe. Apreciar um bom uísque também é cultura, diria Jânio Quadros…
É que falta fair-play ao governador, falta-lhe gosto pela cultura. Pior ainda, falta-lhe entendimento do assunto. Disso resulta deixar escapar o acervo de Glauber Rocha para o estrangeiro, por no chão o Centro Histórico da primeira capital do país, e tratar os seus dois secretários de Cultura, Marcio Meirelles e Albino Rubim, à base de vaselina.
MELHOR FECHAR AS PORTAS
A obsolescência da Secult sob Wagner é tamanha que o melhor seria extingui-la de vez, fechar suas portas e entregar as chaves a Bel Marques, do “Chiclete com Banana”. Ou ao secretário da Fazenda, ou àquele que Wagner quer cacifar como seu sucessor, ex-sindicalista do Sindiquímica como ele, Rui Costa – seu chefe da Casa Civil.
Albino Rubim: Quo vadis?
Albino Rubim: Quo vadis?
O papel de seus secretários de Cultura, inclusive o bem-intencionado Albino Rubim, é similar ao da rainha da Inglaterra. Serve tão-somente para edulcorar o faz-de-conta cultural que, ano após ano, este governo leva com a barriga.
Wagner-Oto Alencar não tem nenhuma política cultural fundada em uma visão global do processo a médio e longo prazos. Vive de improvisos e editais, essa fórmula eleita como o supra-sumo de sua gestão.
Albino, em outras épocas, já teria pegado o seu chapéu e ido embora. Por que não o faz? O baiano Emanuel Araújo, quando se viu desprestigiado no cargo pelo prefeito José Serra em São Paulo (2004-2006), simplesmente chutou o balde – para não ser cúmplice do que avaliou, e avaliou mal, como contenção de investimento na área.
EDITAL PARA BOI DORMIR
O artista Emanuel Araujo, que se rebelou
O artista Emanuel Araujo, que se rebelou
Editais não são um mal em si. Porém, nas mãos de gestores mais interessados em ganhos partidário-eleitorais que em planejamento estratégico para a sociedade nesse campo, se transformaram em moeda sem lastro – com a frequente não liberação ou atraso das verbas orçadas para os mesmos. O que resulta no estrangulamento da própria política cultural e na indigência de artistas e produtores mil.
Na noite de 21 de setembro, antes do início do balé, esses artistas da terra tomaram o saguão de entrada e a plateia do Teatro Castro Alves. Protestaram contra mais um desses tantos “contingenciamentos”, ou bloqueio, das já parcas verbas orçamentárias previstas para a Secult. Repetiam o slogan “A nossa voz não será contingenciada!”, bla, bla, bla.
MERECEMOS PORQUE OS ELEGEMOS
Poderiam, como muito se fez em gestões anteriores de Paulo Gaudenzi, acampar na sede da Secult. Daí exigir ou a saída de Albino, ou que honrasse seu nome e peitasse Rui Costa e Wagner, convencendo-os de que pode ser burrice a estratégia que usam agora, congelando recursos a fim de fazer caixa para 2014.
Artistas protestam na plateia por dinheiro. Foto Dimitri Ganzelevith.
Artistas protestam na plateia por dinheiro. Foto Dimitri Ganzelevith.
É possível que grande parte dos que gritam que sua voz não será contingenciada tenha eleito e reeleito Wagner em primeiro turno. Bem feito: merece o que recebe.
Não honram a “classe”, por subserviência – uma contradição em termos para quem se quer artista. Se amanhã a Sefaz/Secult lhes oferecer umas migalhas, abanam o rabo de volta às hostes de onde nunca saíram.
Ou no pleito do ano que vem se dispõem contingenciar o candidato desse desgoverno cultural?